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Geodiversidade de Nossa Região

Maysa Folmann

   Os Campos Gerais são um setor do Segundo Planalto Paranaense, definido pelo naturalista Maack (1948) como uma zona fitogeográfica, com o predomínio de campos limpos e matas galerias de floresta ombrófila mista. Ocupam uma faixa de quase 12.000km² e representam uma região de beleza única por suas paisagens que associam uma notável diversidade de elementos abióticos (geodiversidade) com elementos especiais de fauna e flora.

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Figura 1 – Localização dos Campos Gerais do Paraná. 1: Serra Geral; 2: Escarpa Devoniana; 3: Campos Gerais. (Fonte: Melo et al. 2007)

   A identidade histórica e cultural dos Campos Gerais foi determinada intrinsecamente por fatores geológicos e geomorfológicos, com registros tão antigos que remontam à pré-história. A existência de diversos sítios arqueológicos na região foi propiciada pela ocorrência de abrigos naturais em rocha (lapas). Os sítios, além de pinturas rupestres, apresentam vestígios de populações indígenas nômades que passavam pela região (PARELLADA 2007). A geodiversidade também foi um dos fatores determinantes para a cultura do tropeirismo, resultando no surgimento de vilas e cidades da região. As condições de relevo e hidrografia permitiram a condução dos animais de carga pelo caminho conhecido como Rota dos Tropeiros. (LICCARDO e PIEKARZ 2017).

Contexto geológico

 

   A origem e evolução da região remontam à processos e fenômenos geológicos de milhões de anos atrás, configurando paisagens de grande beleza cênica que vemos hoje em dia. Dentre as rochas dos Campos Gerais, destacam-se os arenitos da Formação Furnas, uma unidade pertencente à Bacia do Paraná. Esta bacia formou-se quando os continentes da América do Sul e da África ainda estavam ligados. Sua evolução foi longa, possibilitando a formação de rochas sedimentares durante o Paleozoico (541 até 252 milhões de anos), recobertas por rochas vulcânicas no Mesozoico (252 até 66 milhões de anos). Quando os continentes se separaram ocorreu um soerguimento da crosta no atual território paranaense, dando origem ao Arco de Ponta Grossa, uma estrutura com eixo na direção NW-SE e caimento para NW que se estende de Paranaguá ao Mato Grosso do Sul e passa próximo à Ponta Grossa. O arqueamento das rochas causou fraturas e falhas, além de influenciar no atual relevo paranaense.

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Figura 2 – Separação dos continentes sul americano e africano. O Arco de Ponta Grossa ocorreu ao longo de um ramo abortado da quebra continental, em junções tríplices, onde um dos eixos normalmente não dá continuidade, mas marca profundamente o terreno.

(Modificado de Liccardo e Piekarz 2017)

   Ocorrem com menor frequência lineamentos de direção NE-SW, relacionados com a reativação de estruturas antigas durante o arqueamento da crosta. Todos estes conjuntos de falhas e fraturas exercem um forte controle estrutural sobre a rede hidrográfica, caracterizando a singular paisagem dos Campos Gerais que apresenta cânions, cachoeiras e paredões rochosos. Nos arenitos da Formação Furnas, estas fraturas tiveram importante papel no processo de formação de cavidades diversas como furnas, abismos, grutas, abrigos e cavernas. Foram cadastradas 71 cavidades no município de Ponta Grossa, sendo considerada a cidade com mais cavidades no sul do Brasil (GUPE 2018).

Furnas do Passo do Pupo


   As furnas são um tipo de “poços de desabamento”, formados pela queda do teto de grandes cavidades subterrâneas. Possuem paredes verticais e formato circular semelhantes a crateras. Estas cavidades encontram-se associadas com os lineamentos relacionados ao Arco de Ponta Grossa e apresentam fraturas e fendas nas direções NW-SE e também NE-SW. As fendas constituem ambientes particulares com temperatura e umidade diferentes, que proporcionam um hábitat específico para muitas espécies de animais.

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Figura 3 - Furnas Gêmeas. (Fonte: Grupo Universitário de Pesquisas Espeleológicas – GUPE 2018)

   Na região do Passo do Pupo encontram-se as Furnas Gêmeas e a Furna Grande. São exuberantes feições da natureza dotadas de rica geodiversidade. Nelas são encontrados elementos especiais como os espeleotemas, pequenos depósitos minerais de formas variadas compostos geralmente por quartzo e caulinita (GUPE 2017).

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Figura 4 - Exemplo de espeleotema na Furna Gêmea I. (Fonte: Pontes et al. 2018)

   Algumas feições características de ambientes cársticos como alvéolos, dutos e cúpulas de dissolução são encontradas nas cavidades, configurando a região cárstica/espeleológica dos Campos Gerais (Pontes et al. 2018).


   Também é possível observar as caneluras ou canaletas na parte superior das furnas. Estas estruturas evidenciam o desgaste pela água que escorre pela superfície da rocha e dissolve partes do material rochoso. Outra feição interessante da Formação Furnas são os icnofósseis, marcas de animais invertebrados, como os trilobitas, que se moviam nas areias de fundo de mar na época do Devoniano, 400 milhões de anos atrás.


   As furnas permitem a observação de belas exposições dos arenitos, com paredes rochosas de coloração alaranjada, rosada e esbranquiçada, assim como de suas estruturas, a exemplo das estratificações cruzadas, que possibilitam interpretar o ambiente de formação dos arenitos.

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Figura 5 - Paredes rochosas da Furna Grande. (Fonte: Quadros, 2016)

    A região compreeende um rico patrimônio geológico com características singulares de aspecto geomorfológico, paleontológico, estratigráfico, tectônico e espeleogenético. Tem também importante valor funcional pela qualidade hidrológica – nos arenitos dos Campos Gerais, a água em geral é muito límpida e cristalina já que as rochas não liberam argila. Propriedades como porosidade e permeabilidade do arenito caracterizam o potencial para armazenamento de água subterrânea, configurando assim um excelente aquífero. As cavidades são áreas de captação de águas superficiais, servindo como importantes pontos de recarga do Aquífero Furnas.

BURACO DO PADRE

 

  O Buraco do Padre é um atrativo de especial relação entre as furnas e o sistema hidrológico. Caracteriza-se como uma belíssima furna situada no cruzamento de falhas e fraturas de direções NW-SE e NE-SW, permitindo o acesso ao seu interior através do leito subterrâneo do rio Quebra-Pedra. Uma cachoeira adentra a furna, formando um lago raso de fundo arenoso, de rara beleza cênica. Em seu interior pode-se observar os estratos de arenito com estratificações plano-paralelas e cruzadas. A falha NE-SW provocou rotação de blocos, podendo-se observar a mudança no padrão original das camadas de rocha, imposta pelo deslocamento (Melo et al 2005).

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Figura 6 – Entrada do Buraco do Padre. (Fonte: Melo et al 2005)

   Próximo à furna encontram-se feições como fendas, sumidouros e escarpas, a exemplo da Fenda da Freira, desenvolvida a partir de fratura de direção NE-SW, que em certos pontos tem seu teto fechado para passagem de luz. Apresenta feições como espeleotema, alvéolo e duto de dissolução.

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Figura 7 - Aspecto da Fenda da Freira.

Texto elaborado por Maysa Folmann, do Programa de Pós Graduação em Gestão do Território - UEPG.